Aprendendo a ser

Sofia viveu ouvindo que poderia fazer o que quisesse, ser o que quisesse. Viveu assim por muitos anos de sua vida, acreditando no mantra sagrado que lhe fora recitado. Ah, mas isso é bom, você pode pensar. Não, não é, meu caro. E sabe por quê? Porque isso só fazia com que Sofia não reparasse no discurso velado. Enquanto ela acreditava, não via como muito lhe era tirado, e justamente por ela ser mulher. Ela era livre para agir, dentro de uma conduta esperada: falar baixo, não proferir um palavrão, ouvir a tudo sem reagir, estar sempre com um sorriso no rosto, aprender a cozinhar, lavar, passar, catar a roupa do varal. Dominando tudo isso, e depois de tudo isso, Sofia poderia ser quem ela quisesse. Então, seria mesmo?

A menina cresceu dentro da moldura. Até que começou a olhar o mundo que a circundava com outras tintas. O comportamento passou a ser questionado. “Por que aceitar?”, “Por que não expor minha opinião quando acho que ela é válida?”. Foram tantos porquês que a jovem Sofia ficava confusa de tempos em tempos. Tinha crises de consciência, já não sabia quem era, a pobre moça. Queria descobrir.

Começou a ouvir o silenciamento que sofria, inclusive aqueles que vinham com ares de brincadeira. Para casar, ouvia piadas sobre como as mulheres deveriam saber cuidar da casa. Ninguém dirigia os comentários ao noivo. Só para ela. Claro, quem cuida da casa é a mulher. Não para ela. A casa também era para ser cuidada pelo futuro marido, que poderia lavar, passar e cozinhar tanto quanto ela.

Agora, já não queria ficar calada. Mas o que fazer quando a voz ainda não saia? O medo a paralisava, a respiração acelerava, os olhos marejavam. Este era o efeito da negação de seus direitos. Não queria mais ler sobre a mulher que deveria ser: bela, recatada, do lar, mãe com manequim 38, mulher viciada em trabalho que equilibrava com maestria vida pessoal e profissional (existe isso?). Queria deixar os rótulos de lado, e descobrir: afinal, quem era ela nesse mar de mulheres pintadas em capas de revista, tão distantes da sua realidade?

Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!

Logo que pensei em escrever sobre obesidade e magreza, lembrei do lema de Paulo Cintura. Pronto, fui lá e coloquei no título. A motivação para escrever sobre isso veio depois de ler o texto de Felipe Neto, a réplica publicada no site “Lugar de mulher” e a tréplica de Felipe Neto.

Senti-me especialmente incomodada pela maneira como ele trata a questão do gordo por ser gorda. Não sou parte do grupo ~feliz com o corpo que tem~ e isso me causa muitos problemas. Choro em provador de loja, odeio quando um vendedor me olha por inteiro e faz cara de nojinho por eu não caber no manequim 38 e tenho pavor de chegar num lugar e constatar que as roupas vão até o número 42 ou 44 (com cintura 38 ou 40).

Então, quando vejo alguém falar do gordo e justificar que o problema todo é a obesidade, fico um tanto abismada. Sempre me cheira àquilo de você colocar o outro no seu recorte de mundo e justificar isso com o argumento saúde.

Vamos falar também sobre anorexia e bulimia? Vamos falar sobre o conceito de falso magro? Vamos falar sobre a condenação do gordo e o culto ao magro por uma indústria e como isso é nocivo para tantas adolescentes que não se encontram em páginas de revistas para tal público? Vamos falar sobre o que chamam de ~paradoxo da obesidade~?

Nem todo gordo é obeso mórbido. Nem todo gordo está com a saúde por um fio. Isso também não é desculpa para descuido, claro. Mas ser saudável é mais do que a história que a imagem de alguém nos conta. Não é só obesidade que é fatal. Isso não quer dizer que eu esteja fazendo apologia ao excesso. Acredito que o certo é encontrar um balanço. Estou procurando o meu.

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Nicki Minaj x Taylor Swift: isso vai muito além do VMA

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Quando comecei a ver que tinha umas briga entre Nicki Minaj e Taylor Swift rolando no Twitter, corri para ler sobre o que se tratava. Trabalho num jornal e tinha que bater a matéria sobre o assunto. Assim como muitos sites internacionais e nacionais, a abordagem foi: Minaj e Swift brigam por causa de indicados do VMA.

Mas, na real, a questão vai muito além disso. Os tuítes de Minaj não apontavam o dedo para Swift, mas faziam uma reflexão de uma indústria que não avalia artistas brancos e negros da mesma forma. A rapper americana deixou claro seus motivos: se ela fosse um outro tipo de artista, se o clipe dela fosse feito por outro tipo de artista, se ela celebrasse corpos magros… É um tanto de “se” nessa equação. E aí vem Swift vestindo a carapuça e usando o feminismo para se legitimar: “Não é de você colocar uma garota contra a outra. Talvez um homem tenha tomado o seu lugar”.

Mas, pera, “Bad blood” é sobre uma briga entre Swift e Katy Perry. Pera mais ainda: a loura já se delcarou várias vezes como feminista. Não tinha pensando nisso até ler o artigo “Dear Taylor Swift, let’s talk about VMA” (http://blackgirlnerds.com/dear-taylor-swift-lets-talk-about-the-vmas/). Dois feminismos, duas medidas. Ainda lendo o artigo, fica mais claro que com o Twitter de Minaj: calma, Swift, o mundo não gira em torno de você.

Não sou negra e não posso falar do lugar de pessoas que sofrem com racismo. Mas não dá para fingir que isso não existe. Que bom ter artistas que podem falar desse lugar, como Minaj. Esse preconceito velado (às vezes, nem tanto). Toda essa questão nos faz voltar a um tema que estava com força nos holofotes na última semana: apropriação cultural.

Eu sou a apropriadora, nesta história. E nunca tive grandes problema vendo uma mulher branca vestida de Iemanjá, ou vendo um branco usando cocar, ou ouvindo rap de um cantor branco. Mas hoje começo a entencer que o problema é: gostamos de consumir a cultura negra ou indígena, mas sem com um tom a menos. Isso é errado. Faz sentido para mim, hoje, o argumento de Amandla Stenberg sobre as trancinhas de Kylie Jenner: é legal usar, né, e é isso. É necessário olhar para questões como essa mais profundamente.

Faz todo o sentido o argumento de Aline Silveira, do Blogueiras Negras, no artigo “A cultura negra é popular, mas as pessoas negras não” (http://blogueirasnegras.org/2015/02/18/a-cultura-negra-e-popular-mas-as-pessoas-negras-nao/): “O grande público ainda prefere consumir a arte negra sem a produção dos negros. Ainda prefere Miley Cyrus reproduzindo uma dança negra (e pasmem, muito dizem que ela que inventou o twerk), mas critica e acha exótica e vulgar o empoderamento de Nicki Minaj em Anaconda ou Flawless com a Beyoncé. Isso vem da ideia da superioridade intelectual branca. Coisa que não existe. A cultura não tem dono como muitos teóricos ressaltam, entretanto marginalizar o negro e tornar  a sua arte em mercadoria com uma roupagem branca é exclusão. Aliás, ainda valendo para os tempos de hoje: “Não há capitalismo sem racismo.” – Malcolm X .”.

Feminista não é um palavrão!

beyonce-feminist Voltei depois de muito tempo para escrever sobre um assunto que me incomodou bastante neste sábado. Mais do que das outras vezes em que fui confrontrada sobre ele. Estava eu no plantão, fazendo ronda, quando me deparei com a postagem de uma colega no Facebook. Era um repúdio à onda “Eu não preciso do feminismo”. Incomodou, e muito, ler o que a moça da foto que minha colega compartilhou escreveu no cartaz que ela ostentava, com um sorriso no rosto. Nas palavras dela: “Eu não preciso do feminismo, porque os direitos dos homens são tão importantes quanto os meus, não preciso de leis específicas, regalias ou privilégios apenas por ser mulher. Eu não preciso me vitimizar para alcançar meus objetivos”.

Na hora, eu lembrei da apresentação de Beyoncé no VMA de 2014, quando ela fez questão de deixar claro: “Sou feminista” (foto acima), e do texto de escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que está na música “Flawless”, da cantora americana: “Nós ensinamos meninas que elas não podem ser sujeitos sexuais da mesma maneira que os meninos são. Ensinamos as meninas a se diminuirem para que se tornem pequenas. Dizemos para as meninas: ‘Você pode ter ambição, mas não muita. Você deve querer ser bem sucedida, mas não pode ter muito sucesso. Caso contrário, você vai ameaçar o homem’. Feminista: ‘uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos'”.

Fui atrás da palestra de Chimamanda no TEDx, aquela em que ela falou sobre a questão da igualdade entre os sexos. O nome é bem sugestivo, e a jovem do cartaz não vai gostar muito: “Todos nós deveríamos ser feministas”. São 30 minutos. No final, depois de dizer a definição que encontrou no dicionário para “feminista” (a que está na música de Beyoncé), ela traz a sua própria: “Feminista é um homem ou uma mulher, que diz: ‘Sim, há um problema de igualdade entre os sexos, e precisamos corrigir isso, precisamos fazer melhor'”.

Veja bem, em nenhum momento a palavra “vitimizar” foi usada. Afinal, não é disso que se trata. Feminismo é uma luta por igualdade. Eu mesma, confesso, tinha uma resistência em relação à palavra. Mas o feminismo nasceu comigo, só não sabia que esse era o nome. Sempre me irritou a comparação entre mim e meu irmão. Filhos do mesmo casal, fomos criados de forma diferente. Eu fui forjada para ser a boa menina, a rédea era mais curta. Meu irmão foi forjado para ser o bom menino, mas. Sim, existe um “mas” na questão. É mais liberdade, é menos cobrança (em alguns aspectos) e acho que, mesmo sem que meus pais percebessem, houve a exaltação da masculinidade. Se você perguntar, tanto meu pai quanto minha mãe vão garantir: criamos os dois da mesma maneira. Isso não é verdade. Há diferenças, sensíveis, mas há.

E cada vez mais é isso que precisamos pensar e repensar. Que as próximas gerações de mulheres ouçam menos “isso é coisa de homem”, ou descubram que seus salários são inferiores apenas por uma questão de sexo. É ensinar a meninos e meninas que essa discriminação é burra. Não tem razão de ser.

Não estamos mais queimando sutiãs, o que não significa que essa é uma luta que ficou lá atrás. A gente vai de gloss e salto, de cabelo solto e de rasteira, de tênis, de canga, de terno… do jeito que a gente quiser. O importante é não deixar a discussão acabar. O caminho ainda é longo! E que todos nós sejamos feministas!

Ah, se quiser ouvir a palestra de Chimamanda, é só dar o play aqui embaixo!

Nada sei dessa vida

Eu tenho sempre a ideia de que preciso saber tudo, ter todas as soluções, que nunca posso estar errada. Que engano, e quanta pressão desnecessária em cima de alguém.

É preciso ter a consciência, na verdade, de que tanta damos como recebemos. Seja o que for: carinho, risadas, informação… Então, nada de me cobrar demais apenas por não saber uma data, uma música, uma resposta. A vida, afinal, é feita de descobertas, inclusive dessas daí!

Taí mais um plano pra 2015: não ficar neurótica pela ignorância. Já cheguei, várias vezes, à conclusão de que ela é bem-vinda em algumas situações. Ah, e faz parte aprender com os outros e com a vida!

Beijo beijo e inté!

Tá chegando!!!!

Já estamos prontos pra dizer adeus aos últimos 365 que vivemos e nos vestirmos pra celebrar o Ano Novo, nem que a novidade fique só no nome da data. Afinal, vamos levantar amanhã sendo nós mesmos, com nossas qualidades, defeitos, vontades, paixões, decepções…

Confesso que, por mais que eu saiba de tudo isto, não estou imune à mágica do Ano Novo, à vontade  que temos de fazer listas, resoluções, como acreditamos que tudo é possível depois da meia-noite. É quase o conto da Cinderela às avessas: enquanto a carruagem dela se transforma em abóbora e tudo se perde depois das doze badaladas, nós parecemos ganhar fada madrinha, carruagem e tudo que temos direito quando o relógio marca 00h de 1 de janeiro.

Pena que, muitas vezes, dura pouco. Somos levados pela vida, esquecemos das resoluções, de olhar mais para nós, e somos engolidos pela rotina.

Então, cheguei à conclusão que não vou bolar planos mirabolantes. Quero “só” mais força de vontade pra não desistir e entender que a mágica do Ano Novo acontece todo dia! Só depende da gente.

Beijo beijo, e inté 2015 (com mais amor, mais abraço, mais carinho, mais encontros, menos rotina e muuuuita força de vontade)! ❤️

Decisions, decisions

Eu me pego pensando várias vezes em como o tempo muda a gente. A ideia de que o homem é fruto do meio parece bem plausível quando penso em quem eu era e em quem sou hoje. Aos olhos dos outros, nem mudei tanto. Talvez pela aparência: agora meu manequim é 46 (era 38), tenho cabelo curto (era um pouco abaixo dos ombros), sou quase loura (meu cabelo é de um castanho meio termo, nem claro nem escuro). Mas é o que está por dentro que aflige, e não o que está por fora.

Sempre penso em como costumava ser (ou na imagem que tinha de mim mesma): mais tranquila, mais calma, mais boba, mais nova… Confesso que a idade (ainda) não é um problema. Estou com 26 anos, a vida é bela! O que mais me incomoda é a sensação de que endureci com o passar dos anos. Gostaria de ser mais altruísta, de não reclamar de tudo, de não perder pequenos momentos porque estou chateada demais com algo que não é importante. Ainda não achei a medida dos sentimentais. Se estou bem, fico bem demais. Mais o outro lado da moeda é tão poderoso quanto. Tenho o que um de meus grande amigos diz ser “Síndrome de Debby Coitadinha”. Chato, mas é a realidade.

Agora, o que fazer com tudo isso? Não sei. E não saber é outro problema para mim. Ainda penso que dou mais importância ao que não é tão importante ou a quem eu não devesse dar a mínima. Mas não consigo. Eu tento, mas… Acho que vou ter que continuar pensando nisso, tentando trabalhar o que há de bom em mim. Ou pode ser que um dia eu acorde e tudo tenho ido embora (duvido, mas não custa sonhar).